O IPCA de junho veio em 0,38% — dentro do esperado, mas com uma composição que merece atenção. Quando se olha apenas para o número cheio, parece tudo sob controle. Quando se olha para os grupos que mais pesam no orçamento das famílias de menor renda, o quadro muda.
Alimentação no domicílio subiu 0,62% no mês, puxada principalmente por carnes e hortaliças. Energia elétrica, que havia dado trégua nos meses anteriores, voltou a pressionar com a bandeira tarifária amarela. E os serviços — componente mais difícil de controlar pelo Banco Central — continuaram rodando acima de 5% no acumulado de 12 meses.
Quem sente mais
A distribuição do IPCA não é uniforme. Famílias com renda até três salários mínimos gastam proporcionalmente muito mais com alimentação e transporte público do que famílias de alta renda. Isso significa que, para esse grupo, a inflação efetiva é sistematicamente maior do que o índice oficial.
| Grupo | Variação jun/25 | Acum. 12m |
|---|---|---|
| Alimentação no domicílio | +0,62% | +5,8% |
| Habitação | +0,41% | +4,1% |
| Transportes | +0,29% | +3,7% |
| Saúde e cuidados pessoais | +0,55% | +6,2% |
| Serviços | +0,48% | +5,3% |
O que o Banco Central vai fazer com isso
A questão é se esses números alteram a trajetória da Selic. A resposta curta: provavelmente não, pelo menos no curto prazo. O Copom tem sinalizado estabilidade na taxa básica, e um IPCA dentro do intervalo da meta não muda esse cenário.
Mas há uma pressão crescente de setores da economia que pedem redução dos juros. O argumento é que a inflação de serviços, embora persistente, não é do tipo que responde bem a juros altos — ela é mais estrutural, ligada a reajustes de contratos e custos de mão de obra.
O debate está longe de ser resolvido. E enquanto ele continua, as famílias brasileiras seguem navegando uma inflação que, no papel, parece controlada — mas no carrinho de supermercado, conta uma história diferente.