Existe uma narrativa muito repetida nos últimos meses: com a Selic acima de 10%, por que alguém colocaria dinheiro na bolsa? A lógica parece simples — renda fixa paga bem, risco menor, dorme tranquilo. Mas os números do mercado contam uma história diferente.

O fluxo de capital estrangeiro para a B3 cresceu 14% no primeiro semestre de 2025 em comparação ao mesmo período do ano anterior. E o investidor pessoa física, que chegou a recuar em 2023, voltou a aumentar sua exposição em ações. Conversamos com três gestores de fundos de ações para entender o que está por trás disso.

O prêmio de risco ainda compensa

"O mercado não se move só pelo juro presente. Ele desconta o futuro", explica Marcos Andrade, gestor de um fundo multimercado com R$ 2,4 bilhões sob gestão. Segundo ele, as empresas que compõem o Ibovespa estão sendo negociadas com múltiplos historicamente baixos — o que cria uma assimetria favorável para quem tem horizonte de dois a três anos.

Não é uma visão unânime. Há quem argumente que os múltiplos baixos refletem riscos reais: fiscal, regulatório, político. Mas mesmo entre os mais cautelosos, poucos estão completamente fora da renda variável.

"Estar 100% em renda fixa também é uma decisão de risco. Você está apostando que o juro vai ficar alto para sempre — e isso raramente acontece." — Gestora de fundo de ações, São Paulo

Setores que chamam atenção

Bancos, utilities e empresas exportadoras têm concentrado a maior parte das posições dos fundos que acompanhamos. O setor bancário, em particular, tem apresentado resultados trimestrais acima das expectativas, com inadimplência controlada e margem financeira robusta.

As exportadoras se beneficiam do dólar ainda em patamar elevado. Petrobras e Vale, as duas maiores empresas do índice, continuam sendo peças centrais nas carteiras — não por entusiasmo, mas por peso e liquidez.

O que os dados mostram

Entre janeiro e junho de 2025, o Ibovespa acumulou alta de 8,3%. No mesmo período, o CDI rendeu cerca de 5,2%. A diferença não é enorme, mas é suficiente para manter o interesse. E quando se olha para fundos de ações específicos — especialmente os de gestão ativa focados em small caps — a diferença se amplia.

Claro que rentabilidade passada não garante nada. Mas o argumento de que "a bolsa não vale a pena com Selic alta" parece cada vez menos sustentado pelos dados concretos de 2025.

A questão, no fim, é menos sobre o nível do juro e mais sobre o horizonte do investidor. Quem pensa em 18 meses olha para a renda fixa. Quem pensa em cinco anos olha para a bolsa — e o que ela pode entregar quando o ciclo de juros virar.